em.cantos
O IPBeja está na sua terra
O em.cantos foi um dos projectos mais marcantes do meu percurso académico e de intervenção no território. Concebi-o e coordenei-o com a convicção de que uma instituição de ensino superior deve ultrapassar os limites físicos do seu campus e colocar o conhecimento ao serviço das comunidades onde se insere.
Entre 2009 e 2010, percorremos os catorze concelhos do distrito de Beja, levando o Instituto Politécnico de Beja ao encontro das pessoas, das instituições e das realidades locais. Mais do que organizar um conjunto de eventos, procurei criar espaços de encontro e de diálogo onde investigadores, autarcas, empresários, associações, agentes culturais e cidadãos pudessem reflectir, em conjunto, sobre o presente e o futuro de cada território.
Cada sessão foi desenhada a partir da identidade do concelho que a acolhia. Património, turismo, biodiversidade, empreendedorismo, recursos naturais, gastronomia, cultura, geologia ou inovação foram alguns dos temas que serviram de ponto de partida para discutir oportunidades de desenvolvimento e afirmar o potencial do Baixo Alentejo.
Mas o em.cantos nunca foi apenas um ciclo de conferências. Foi um exercício de construção colectiva, onde procurei aproximar diferentes saberes e diferentes formas de olhar o território. Sempre acreditei que o conhecimento científico só adquire verdadeiro significado quando dialoga com o conhecimento das comunidades, quando escuta quem vive os lugares e quando contribui para transformar essa realidade.
O projecto envolveu os catorze municípios do distrito, instituições públicas, empresas, associações, escolas, meios de comunicação social e centenas de participantes, demonstrando que o desenvolvimento territorial é tanto mais sólido quanto maior for a capacidade de construir redes de colaboração, confiança e compromisso.
Olhando hoje para trás, reconheço que o em.cantos antecipou muitas das abordagens que, entretanto, se tornaram centrais nas áreas do desenvolvimento territorial: a governação colaborativa, o place branding, a participação cidadã, a cocriação de valor, a inovação social e a sustentabilidade como princípios orientadores das políticas públicas.
O impacto do projecto ultrapassou largamente a realização dos seus eventos. A experiência deu origem a investigação científica, foi apresentada em diversos contextos académicos e permanece como uma referência do potencial que as instituições de ensino superior têm para promover o desenvolvimento dos territórios quando assumem um papel activo na sociedade.
Mais do que um projecto, o em.cantos representou uma forma de entender a missão da academia: sair das salas de aula, escutar os territórios, aprender com eles e devolver-lhes conhecimento capaz de gerar mudança.
Essa visão continua, ainda hoje, a orientar grande parte do meu trabalho. Muitos dos projectos que desenvolvi posteriormente, seja nas áreas do marketing territorial, da sustentabilidade, da valorização do património, da cultura ou da inovação social , têm as suas raízes na experiência adquirida durante o em.cantos. Foi aqui que compreendi que o desenvolvimento dos territórios não nasce de soluções impostas, mas da capacidade de mobilizar pessoas, construir confiança e criar uma visão colectiva para o futuro.
O em.cantos ensinou-me, acima de tudo, que os territórios não se transformam porque alguém fala sobre eles. Transformam-se quando aprendem a conversar consigo próprios. Foi essa conversa que procurei iniciar em cada concelho e é essa mesma convicção que continua a inspirar o meu percurso académico, científico e de intervenção na comunidade.
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