
Olhares sobre o Tempo
As crónicas aqui reunidas representam apenas uma parte de um exercício regular de observação, reflexão e escrita sobre o quotidiano. Nelas cruzam-se temas tão diversos como a actualidade, a cultura, a educação, os territórios, os afectos, a cidadania e as pequenas histórias que ajudam a compreender a complexidade do nosso tempo.
Mais do que opiniões ou comentários circunstanciais, estes textos procuram constituir espaços de reflexão, onde a realidade é observada através de um olhar simultaneamente crítico, humanista e literário.
A Sereníssima República das Verdades Absolutas e Universais

Em 2050, a República de Geia, o estado mais antigo do mundo, situado num enclave nos Montes Apeninos, representava o último reduto da civilização lógica e racional. Autoproclamava-se “Terra da Liberdade”, tal como fora marcado, a ferro e fogo, num orgulhoso letreiro de boas-vindas, replicado em todos os locais públicos de paragem, de pausa, de descanso e de observação. Esta “máxima” nasceu na sequência da reconstrução do mundo, após a Grande Hecatombe do Logro e da Hipocrisia, a catástrofe global que durou cerca de dois anos e que quase devastou a Humanidade. Nesse período, a polarização ideológica, a intolerância e o individualismo exacerbado, fortemente alimentados pela desinformação e pelo desinteresse das pessoas pela manifestação de interesse, assumiram proporções sem precedentes, de tal modo que conduziram a uma realidade de isolamento e de colapso dos valores coletivos. Quando se estava a reerguer, na tentativa de impossibilitar a repetição da tragédia, Geia lembrou-se de criar a “sociedade perfeita”. Para isso, o Conselho Grande e Geral, a sede do seu poder parlamentar, incumbiu o executivo Congresso de Estado da função de aproveitar os recursos tecnológicos que tinha ao dispor para, com base no velhinho Sidis, construir uma nova versão deste supercomputador neuromórfico. O novo modelo deveria igualmente ser capaz de simular, em escala integral, todas as sinapses de um cérebro humano, mas deveria ir mais além e criar formas, ainda mais eficientes, de efetuar processos de inteligência artificial. Esta foi a solução encontrada para retornar a dar primazia à razão, desta vez sustentada, apenas, na verdade lógica. O Sidis II permitiu que Geia instaurasse, com a anuência de todos, o regime da Verdade Absoluta e Universal: tudo, mas tudo mesmo – incluindo pensamentos, sonhos e opiniões – era averiguado e classificado pelo computador, numa escala de Verdade. O estatuto de cada cidadão media-se inclusivamente pela maior ou menor proximidade à Verdade Absoluta, dos seus atos e formas de estar, vertido na acumulação de pontos no seu bilhete de identidade, atribuídos pelo computador. Caso uma qualquer situação ou ato, em sede de avaliação, fosse declinada pelo Sidis II, por a considerar uma mentira ou uma contestação ao regime e à evolução da civilização, a pessoa que a tivesse criado ou praticado seria excluída da sociedade, perdendo o estatuto de cidadã e tornando-se pária. Deixaria de exercer a sua profissão, fosse ela qual fosse, e passaria a realizar os trabalhos considerados mais sujos e desprezíveis. Neste sistema destacava-se o papel dos professores, já que a formação e a educação deveriam estar alinhadas com esta forma de entender o mundo. Alessia era professora de ensino básico e uma cidadã exemplar, absolutamente crente no regime e na bondade do Sidis II. Um certo dia, em aula dedicada à estruturação das noções de espaço e de tempo, com recurso a elementos da História e da Geografia de Geia, entendeu começar a abordagem ao supercomputador e à forma como ele salvou a Humanidade. Enquanto falava, um dos seus alunos põe o dedo indicador, onde morava um grande penso, no ar, e fez uma observação completamente inusitada. “Na semana passada, estava a brincar, descuidei-me e entalei o dedo na porta. Tive de ir ao hospital. Doía-me muito e fiquei muito triste. A minha mãe disse-me para ter mais cuidado, mas desculpou-me e disse que todos se descuidam às vezes e fazem coisas malfeitas. Como eu fiz. E este computador? Também se engana?” Nunca tinha colocado essa possibilidade. Surpreendida, mais pela pergunta do que pelo facto de ser uma criança a fazê-la, entendeu dar a resposta “politicamente” mais correta: “O Sidis II não é uma pessoa, é uma máquina muito, muito, inteligente. Por isso nunca se engana!” Todavia, ficou perturbada. Pela primeira vez, a dúvida instalara-se na sua cabeça: E se o Sidis II não for infalível? De volta ao gabinete, usou o seu computador pessoal para pesquisar sobre putativos erros que possam ter acontecido no passado. Por um momento, esqueceu-se que o Sidis rastreava tudo e facilmente foi identificada como prevaricadora, acusada de estar a pôr em causa uma verdade absoluta e universal. Acabou por ser levada a tribunal. Desesperada, deixou que uma certa ousadia prevalecesse em sua defesa e atreveu-se a dizer: “Eu tive uma dúvida e pretendia apenas esclarecê-la. Compreendo agora que, ao contrário do que sempre me foi ensinado, a dúvida não leva ao caos, mas antes é sinónimo de liberdade. Se uns estão no direito de não duvidar, outros deveriam poder fazê-lo: se todos forem concebidos como iguais, onde ficará o direito da diferença, a possibilidade de pensar de maneira diferente e de ser diferente? Mas talvez o problema resida mesmo na tolerância, ou melhor, na falta dela…” A sentença foi imediata: Alessia foi considerada dissidente e reclassificada como pária! Passado este episódio, Geia voltou à sua rotina. As crianças, em casa e nas escolas, memorizavam as virtudes do supercomputador; nas ruas, nas praças, nos campos, nas fábricas, nos transportes… em todos os espaços públicos as pessoas exerciam o seu direito de manifestação pacífica, enquadradas na campanha global “Livra-te do Caos, Cuida da Liberdade”, reiterando a sua fidelidade ao regime e ao Sidis II, o seu salvador. No entanto, o número de dissidentes era cada vez maior. Estes, na obscuridade, organizavam-se em torno de um lema, de uma mensagem, incompreensível ao supercomputador e, por isso, impossível de a prever: “Não há factos eternos, assim como não há verdades absolutas”. Onde há dúvida, há liberdade! Aceder à crónica publicada: https://diariodoalentejo.pt/pt/noticias/19939/a-serenissima-republica-das-verdades-absolutas-e-universais.aspx
A invisível estrutura do visível

Aquele lugar não se achava em nenhum mapa. Era uma cidade suspensa, uma espécie de Shangri-Lá, sustentada por pilares de pedra e embrulhada num nevoeiro raso, de um dourado antigo, profundo e envolvente. Naquela cidade viviam seres ímpares, invulgares, favorecidos pela graça dos pássaros: os Criativoadores. Estes indivíduos, talhados pelos suspiros da brisa e pelos rugidos do vento, eram feitos de quimeras, de luz e de penumbra. O seu coração era uma chama visível, um fogo ardente, alimentado pelo “enthousiasmos”. Cada um deles tinha a sua centelha, única, sem igual, através da qual era possível configurar as coisas inexistentes. Eram conhecidos como os artificies do impossível, do impensável, transformando a ausência e a carência, na presença e na abundância. Naquela cidade, as ideias eram flores que nasciam e desabrochavam, formando campos idênticos aos de tulipas na Holanda, principalmente na primavera. Sempre que os Criativoadores lhes mexiam, como que por milagre, elas passavam a exibir formas insólitas e surpreendentes. Todavia, este prodígio aportava um senão: quando expostas, as ideias, em forma de flores, tornavam-se vulneráveis, indefesas, entregues ao vento e, tal como os grãos de areia no deserto, as suas pétalas quando caíam eram arrastadas para longe. Durante o caminho, o seu fulgor tornava-se cada vez menor, extinguindo-se aos poucos… Aquele local era amiúde visitado pelos Comimitativos, seres imitadores, feitos de ressonância e de reverberação, mestres na arte de copiar modelos e matrizes. Como eram incapazes de esculpir o âmago das coisas, usavam parte da sua energia a vigiar, de longe e por entre os sonhos, os Criativoadores, sempre atentos à queda das pétalas e, porventura, ao enfraquecimento das flores. Quando tal acontecia, aproximavam-se furtivamente, camuflados, escapulindo-se por entre as sombras, levando consigo as ideias e os pedaços que conseguiam reunir. Um dia, o Criativoador Noa, depois de passar dias e noites, com carinho e dedicação, a modelar formas e contornos, concebeu uma ideia extraordinariamente bela. Esta possuía o brilho do mais puro diamante e reflectia todas as cores do arco-íris. Porém, um brevíssimo momento de desatenção possibilitou a aproximação de uma sombra, de um corpo estranho, que rapidamente usurpou a essência daquela composição, escapulindo-se de imediato e deixando, atrás de si, uma gargalhada de troça. Aflito, sem que soubesse como lidar com o vazio que dele se apossara, Noa escolheu ir no encalço do larápio. Todavia, quanto mais se afastava da cidade, mais sinuosos se tornavam os caminhos; também o nevoeiro, cor de ouro, parecia oxidar-se, assumindo um tom paulatinamente mais cinzento, quase breu. A dada altura, Noa começou a sentir-se dentro de um labirinto, pleno de trilhos sombrios, sem saída aparente. Cada escolha descobria mais e mais alternativas, revelando-se inútil… Extenuado, parou de correr. Dobrou-se sobre si próprio, pôs as mãos nos joelhos e deu conta de que se havia perdido. Entretanto, a centelha no seu coração quase se extinguira… Prestes a desistir, levantou a cabeça e viu algo absolutamente inesperado: um espelho a reflectir um raio luminoso que parecia querer tocar-lhe… Logo que o raio roçou o seu corpo, desagregou-o em pequenas partículas, sugando-as num ápice. Noa foi arrastado para uma dimensão em que os ponteiros do relógio andavam para trás, onde o futuro era o passado. À sua frente passavam imagens do ontem, do antes de ontem, da semana passada… uma sucessão de dejá vu… se bem que distendido, deformado, aparentemente gerado por máquinas com defeito. Apercebeu-se da presença de muitos, muitos Comimitativos. Aquele era o seu mundo particular, onde eles reproduziam as ideias roubadas, transformando-as em cópias baças, privadas da vida original. Curiosamente, movimentavam-se em círculo, criando um espectáculo similar ao ciclone das renas: circulavam em torno do mesmo ponto, com alguma rapidez e em uníssono. Noa demorou-se a olhar aquele quadro, sempre igual, igual, igual. A dada altura percebeu que os Comimitativos agiam assim por serem incapazes de conceber algo realmente original, transformador, sobrando-lhes apenas repetir, imitar, copiar, reproduzir. Esta conclusão levou-o a entender que as ideias podiam ser roubadas, mas não a sua essência, o significado de ser um Criativoador. Ou aquilo que representava a centelha que flamejava no seu coração. Nesse preciso momento cerrou os olhos para ver com a máxima clareza dentro de si. Bem no fundo da sua alma, descortinou uma pequena faísca que, veementemente, permanecia acesa. Com muita cautela, soprou-a, tendo conseguido reanimar o seu fogo da criação. De seguida, abriu os olhos. O sombrio labirinto era agora um local de beleza natural deslumbrante, com vegetação exuberante, águas cristalinas, areias brancas e uma atmosfera tranquila e relaxante. Naquele instante, Noa compreendeu que o seu verdadeiro talento não se confundia com qualquer ideia que pudesse conceber, mas antes consistia na sua capacidade de a reinventar, todas as vezes que o seu desejo o determinasse. Enquanto os Comimitativos acumulavam ressonâncias, os Criativoadores eram Fénix renascidas, retratos do eterno recomeçar, da sua essência preservada. Por isso, decidiu esquecer aquela ideia que lhe tinha sido roubada. Afinal, cada derrota, cada insucesso representava, também, o princípio de uma outra qualquer coisa: enquanto os Criativoadores faziam acontecer o impossível, os Comimitativos, apesar da sua esperteza e avidez, nunca conseguiriam ser mais do que meros imitadores.
Um problema de equilíbrio

Na origem, quando era desconhecida a noção de abismo, existia uma harmonia entre o Homem e o universo. Logo que essa noção passou a ser inerente a toda a experiência humana, gerou-se a perceção de que existe um equilíbrio que foge ao nosso domínio. Foi nesse preciso momento que nasceu a eterna e inglória busca do Homem, do e pelo justo equilíbrio – o tal onde mora a sua, mais ou menos nítida, completude –, cujo catártico caminho tem por fim, tão somente, exorcizar o medo. Perplexos, alguns de nós começaram a correr mundo, de lés a lés, fazendo perguntas e procurando respostas, no desejo de reencontrar a candura e a nitidez do início ou, por outras palavras, a restituição do equilíbrio. Com esta nova situação, ao provocar uma qualquer ação, como saber se estamos a esconjurar ou a convocar, a luz ou a sombra? Alertaram-me para a importância do discernimento e de saber discernir, com sabedoria. Desejavelmente, de uma forma íntegra, imparcial, legítima, apropriada e conveniente. Mas, esperar que todos assim o fizessem, afigurava-se-me uma fantasia… Perante as minhas dúvidas, preveniram-me para os perigos da ousadia – da coragem de agir ou de falar sem medo –, malgrado os riscos, factuais ou fictícios, que possam advir. Em particular, se essa ousadia estiver fundada na imprudência, ao invés de se alicerçar no conhecimento. Nestas circunstâncias, tenderia a converter-se numa tolice. Persistia, então, a pergunta: até onde se pode ir? Seduzida por estas incertezas e indagações, também decidi empreender aquela viagem. Como navio, escolhi o meu corpo, a minha mente e a minha alma. Não sabia onde esta jornada me levaria, mas essa insciência era, talvez, o seu maior fascínio. Será que iria encontrar algumas certezas? Porventura, a música, presente no sussurro do rio, no crepitar da fogueira, no assobio do vento, no tamborilar da chuva, no gorjeio dos pássaros, na voz do Homem… em todos os seres da natureza, pudesse ser a minha companheira de viagem. Encontrei um leão a rugir e, sem que me chegasse muito perto dele, pedi-lhe “Leão, ensinas-me a origem do teu rugido?”. Ele, depois de me presentear com vários grunhidos, disse-me “Aproxima-te. Não tenhas medo de mim. Põe a mão na minha cabeça e procura ouvir o que eu não sei dizer. Talvez encontres a resposta”. A seguir, ao passar por um bosque, ouvi as árvores a conversar. Escolhi a mais frondosa e repeti a pergunta “Árvore, conheces o som inicial da tua voz?” Vi caírem-lhe muitas folhas de uma só vez. Presumi que isso terá resultado de alguma surpresa, ou de um certo espanto. Todavia, respondeu “O inverno aproxima-se. As minhas folhas estão a mudar de cor e a cair… sempre foi assim e assim continuará a ser. A razão dir-te-á porquê”. Ao dirigir-me para o mar, comecei a notar que este me presenteava com uma fresca e agradável brisa. Resolvi perguntar-lhe “Brisa, explicas-me a origem do teu sibilo?” Senti que ela se mexia, como se estivesse a ensaiar uma dança. Que eu não via. Enquanto isso, retorquiu “Se fechares os olhos e acreditares, é possível que me vejas. Quiçá assim tenhas a tua resposta”. Passado pouco tempo, cheguei ao mar. À sua beira, aproveitei para sentir o aroma da maresia. “Mar, gostava de conhecer o princípio do murmúrio das tuas ondas quando quebram…” Naquele momento, as ondas tornaram-se levemente maiores e, ao rebentarem, revelaram-se mais barulhentas. Apreensiva, recuei um bocadinho. Depois de breves minutos, a tranquilidade voltou a impor-se. Chegara o momento do lusco-fusco. Eu permanecia descalça, com os pés na areia molhada, a sentir aquela energia. Havia pensado aproveitar o encanto do momento e questionar igualmente a luz. Optei por não o fazer. Por certo também não me iria responder. Aceder à crónica editada: https://diariodoalentejo.pt/pt/noticias/18845/um-problema-de-equilibrio.aspx
Para si, o que foi o 25 de Abril?

Quando se comemoram 50 anos sobre o golpe de estado que deu lugar à Revolução de Abril, o responsável por um conhecido podcast contactou-me no sentido de perceber o que aquele acontecimento havia representado para a minha pessoa. Apesar de ter ficado grata pela putativa consideração, traduzida no convite, decidi não responder de imediato e conceder-me algum tempo para pensar. Pelo que me é dado a observar, tenho a crescente convicção de que dar uma entrevista é, na verdade, um atrevimento, cujo custo para o entrevistado pode ser elevado. A razão é simples: por um lado, se, por qualquer motivo, o entrevistado não se conseguir expressar devidamente, o conteúdo da mensagem não “passa” tal como seria desejável; por outro lado, o entrevistador, quando confrontado com a necessidade de seleccionar excertos, pode escolher aquele ou aqueles que, fora do contexto, não reflictam com rigor as ideias do entrevistado, ou levar a interpretações mais ou menos subliminares, mais ou menos dúbias. Mesmo que seja indeliberado. Por isso, alguém disse – julgo que foi Milan Kundera – que a pergunta é, só por si, um exercício de poder. Somava-lhe… ou de abuso desse poder. Em resumo: o acto de entrevistar não deixa de ser um desafio para o entrevistador e, para o entrevistado, dar uma entrevista não é tão simples, nem tão conveniente ou auspicioso, como poderá parecer à primeira vista. Talvez tenha sido sempre assim e, até agora, eu não estivesse tão desperta para isso; ou os acontecimentos que marcam a actualidade, em Portugal e no mundo, têm sido particularmente propícios a que exemplos ambíguos se sucedam sem cessar. Mas como, para além de uma certa cautela que a vida impõe, a minha “pseudoaura” (termo utilizado por Guy Debord) é pequenina, entendi aceitar. Afinal, o repto passava apenas por uma pergunta, ampla e aberta, – “Para si, o que foi o 25 de Abril?” –, cuja resposta não deveria ultrapassar os três minutos. Decidi redigir previamente algumas notas que me pudessem servir de guia. Assim foi e a dita entrevista aconteceu! Entretanto, pretendi desenvolver um pouco mais as referidas notas e partilhá-las agora neste depoimento. Quando me levantei, naquela quinta-feira (25 de Abril de 1974), aguardava um dia normal. Tomei o pequeno-almoço, a mãe preparou-me a lancheira e o pai levou-me à escola. Tinha oito anos e frequentava a Escola Primária do Salvador. Um bocadinho longe de casa. Apesar de viver na freguesia de Santiago Maior (Beja) e ter entrado para a escola primária que aí existia, acabei por ser transferida. Quando a mãe pretendeu saber o porquê, disseram-lhe que uma professora, colocada naquele ano naquela escola, com uma filha da minha idade, tinha preferência. Sendo eu a mais nova da turma, tive de sair para lhe dar lugar. Foi um processo doloroso e difícil, tanto para mim como para os meus pais. Mas, como “há males que vêm por bem”, fui recebida numa escola, igualmente só para raparigas como se “usava” na altura, por uma professora extraordinária, responsável pelas bases da minha formação. Uma senhora viúva, rígida e doce, muito perspicaz. De nome Maria da Conceição Silvestre. Grata, deixo-lhe a minha eterna homenagem. Aquela era uma típica escola primária do Estado Novo: o quadro de ardósia estava ao centro da parede e, na parte de cima, havia um crucifixo. Ao seu lado esquerdo, tinha lugar a fotografia do Presidente da República e, do seu lado direito, a imagem do Presidente do Conselho de Ministros. As carteiras de dois lugares, de madeira, com o tinteiro na bancada, estavam alinhadas e viradas para o quadro e para o estrado, disposto no chão. A secretária da professora estava colocada no canto superior esquerdo e, atrás dela, pendurada na parede, morava a régua que, quando de lá saía, era para marcar uma ou outra mão de vermelho. Naquele dia, reparei que as fotografias estavam viradas, de frente, para a parede. Como habitual, aguardávamos, em pé, junto ao respectivo lugar, que a professora entrasse e nos desse autorização para sentar. Quando ela entrou, visivelmente intranquila, explicou-nos que tinha havido uma mudança do poder, de quem mandava no país. Até ao momento, pacífica, mas que poderia tornar-se violenta a qualquer momento. Recomendava, pois, que voltássemos para casa. Assim foi. Quando cheguei a casa, os meus pais procuraram explicar-me com o detalhe possível o que se estava a passar. Depois, de um dia para o outro, a vida mudou: a guerra colonial terminou; as mulheres começaram a ver reconhecidos os seus direitos e a garantia constitucional de igualdade – durante a ditadura, a título de exemplo, só podiam trabalhar com a autorização dos maridos, não podiam exercer determinadas profissões (diplomatas, polícias ou juízas), as hospedeiras e as enfermeiras não podiam casar –; as pessoas passaram a ter o direito de se manifestar pacificamente em locais públicos e a protestar ou a reivindicar direitos laborais através da greve. Foi extinta a PIDE. Todos passaram a poder dar a sua opinião nas ruas e nas urnas, e começaram a experimentar, num crescendo, um sentimento de liberdade e de segurança na relação com o que as rodeava. Mas se a liberdade é um valor supremo, não se pode esquecer que ela aporta responsabilidade. Por isso, George Bernard Shaw afirmava que “Liberdade significa responsabilidade. É por isso que tanta gente tem medo dela”. Diria que sou uma privilegiada por me ter feito mulher nessa altura, por ter assistido à mudança e por viver num país cujo regime político se apelida democrata. Passados 50 anos e, segundo dados de Fevereiro de 2024, “Portugal ocupa o 31.º lugar no índice da democracia da revista ‘The Economist’, caindo três lugares. (…) tem o pior resultado desde 2013 e continua a ser ‘democracia com falhas”. “Referindo-se à forma como os portugueses vivem a democracia, [Pedro Magalhães] diz que somos um povo de democratas descontentes e desafetos. Ou seja, nós não questionamos a democracia, mas questionamos, e bem, a qualidade dessa democracia”. Por conseguinte, atrevia-me a dizer que a grande preocupação deveria passar por encontrar formas de melhorar a democracia portuguesa. Talvez fosse importante, por exemplo, começar por perceber, hoje, quais os significados e quais as consequências de viver e de conviver numa democracia representativa; porventura, poderia ser interessante compreender a presente dimensão e limites da condição de cidadão; quiçá entender os motivos e as repercussões da abstenção existente e da discussão entre igualdade de oportunidades e igualdade de resultados, também não fosse despiciendo. Mas, enfim, tudo meros pensamentos.
Olhar, ser olhado e olhar-se

Sentia-se perdida naquela interminável reunião, saturada de desacertos e de palavras esvaziadas de sentido. Onde o diálogo servia muito mais para ostentar pseudo-eloquências do que para criar pontes que facilitassem ultrapassar as diferenças e os prejuízos decorrentes dessas inconsonâncias. A experiência dizia-lhe que existiam fortes probabilidades de, no final daquela enfadonha discussão, a solução passar tão-só pelo usual e suficiente “sem fazer muitas ondas”, pelo fácil e pretensamente “democrático”, sustentado por um servir a todos e em prol de um bem maior – apesar de não se conseguir perceber, de facto, qual a dimensão desse bem maior. Face a isto e a mais um conjunto de paradoxos que sentia e que ainda não havia conseguido explicar, nem sequer a ela própria, poderia ter reagido de diversas maneiras. Naquele momento, pensou que aquilo era uma réplica, numa escala mais pequena, do que via acontecer em fóruns de grande responsabilidade governativa do País, tantas vezes televisionados, e que dificilmente haveria volta a dar. A repetida constatação da impossibilidade de aquele tipo de cenário vir a constituir-se como uma efectiva oportunidade de mudança e de fazer diferente, frustrava-a. Mas, em tal caso, tendo optado pela participação, reviu-se numa frase que leu algures: “Fizeste o melhor que sabias. Perdoa-te!” Este pensamento devolveu-lhe alguma serenidade. Afinal, a vida é feita de altos e de baixos, de momentos de felicidade e de satisfação, mas também de horas, minutos e segundos onde prevalecem os sentimentos mais desagradáveis, de entre os quais, a frustração. Porém, vendo o lado positivo da situação, experienciar esta amálgama de sensações significava que estaria a viver na plenitude. Faltava-lhe apenas continuar a refinar a forma como convivia com as vivências menos boas. Enquanto fazia estas reflexões, observava as pessoas. Isso permitia-lhe reconhecer cada um dos subtis significados que se incorporam num simples gesto. Este exercício fascinava-a. Lá estava “o lógico”, sempre a analisar tudo muito bem, destacando-se o seu perfeccionismo; “o comandante”, claro, a respirar liderança; depois, “o animador”, sempre com um sorriso no rosto e tendencialmente mais tolerante; “o mediador”, idealista, discreto, compreensivo e empático, fiel ao propósito de que é possível tornar o mundo um sítio melhor para se viver; e muitos “provedores ou servidores compassivos”, apesar de não se saber muito bem para que lado cada um deles orientaria, naquele dia em particular, a sua “moral”… A dada altura, o seu nome é proferido em voz alta. Isso fê-la acordar do torpor em que se instalara. Estavam a dar-lhe os parabéns por uma determinada actividade em que se havia destacado. Surpreendida, agradeceu. Independentemente da conveniência ou da impertinência que aquele elogio carregava, entendeu aceitá-lo. Mais por delicadeza e por se sentir orgulhosa com o seu feito, do que por vaidade. A bem da verdade, “se o autor não se emociona com a sua própria criação, dificilmente pode esperar que outros o façam”. Acreditava que aquela sua posição não teria sido percebível. Não pretendia que fosse. Também, isso não tinha qualquer interesse para aquelas pessoas. Com excepção dela própria, mais preocupada com a opinião que tinha da sua própria pessoa, do que com o que os outros pudessem pensar dela. O que a remeteu, no imediato, para outro raciocínio: lembrou-se que quando somos fotografados e vemos as fotografias, gostamos ou não gostamos. Se gostamos, é sinal de que nos “saímos bem” e que a fotografia reflecte a imagem que temos de nós próprios ou o (um dos) nosso melhor lado; se nos “saímos mal”, significa que aquela imagem não corresponde à que fazemos da nossa pessoa e/ou que fomos apanhados num mau momento. Sabia que a fotogenia estava para além da estética e que também se pode aprender a explorar os melhores ângulos de cada um, etc. etc.. Apesar de já ter sido fotografada muitas vezes e por muitas pessoas, enquadrava-se naquele grupo cujo resultado raramente a seduzia. Talvez pela razão de nunca ter decidido explorar o mistério da fotogenia e achar que a fotografia, mesmo espontânea, para além da beleza e da estética, deveria expressar sentimentos. Verdadeiros. E isso não lhe parecia ser, nem fácil de apanhar num “disparo”, numa qualquer circunstância, nem tarefa para qualquer “lente”. Isto valia também para o facto de serem possíveis inúmeras interpretações em relação a cada um – tantas quantas as pessoas em presença – quando se comunica com alguém. Dificilmente o que cada um é, na realidade, é coincidente com aquilo que acredita ser, com o que os outros gostariam que fosse, com o que supõe que os outros pensam que é, com aquilo que os outros querem que seja, com o que gostaria que os outros acreditassem que é, com o que crê que os outros gostariam que fosse e, por fim, com o que os outros pensam que se considera ser. Enquanto isto, o palavreado de enaltecimento terminara. Na sua cabeça, todavia, ecoavam as palavras de Chaplin: “Creio que não se pode fazer nada de grande na vida se não se fizer representar o personagem que existe dentro de cada um de nós”. Levantou-se e, a sorrir, voltou a agradecer.
Vida oblíqua

Tenho a sensação de que as coisas mais bonitas que escrevi até hoje não terão conseguido interessar, sobremodo, muitas pessoas. Mea culpa: por certo, porque não as consegui escrever bem. E talvez, também, pelo facto de os temas fundamentais ao ser humano serem eternamente os mesmos e outras pessoas, antes de mim e mais talentosas do que eu, já os haverem identificado e escrito sobre eles. Na verdade, algumas dessas pessoas souberam fazê-lo magnificamente. Se considerarmos estas múltiplas abordagens, ao longo dos anos, traduzidas em diversas formas de arte, de acesso público, que influenciam e inspiram o modo como cada um de nós vê o mundo, sentir-me-ia levada a afirmar que os clichés (“imagem ou ideia muito repetida ou estereotipada; chavão”) estão por todo o lado. Mas este raciocínio não porá em causa, cada vez mais, a designada “obra original”? Afinal, o que é que pode surpreender e prender a atenção dos leitores (preferencialmente vistos por perfis e por tipos)? Recordo, por um lado, um dos “meus” magníficos, José de Almada Negreiros, que, em 1921, notou uma necessidade, e tanto sobre ela, como a propósito do respectivo contexto, escreveu: “Nós não somos do século d’inventar as palavras. As palavras já foram inventadas. Nós somos do século d’inventar outra vez as palavras que já foram inventadas”. Todavia, por outro lado, passados cerca de cem anos, este “novo mundo” é marcado por uma proliferação desenfreada de palavras, por uma saturação de palavras, rodeadas de barulho, prenhes de urgência e esvaziadas de sentido. Na verdade, as palavras não estão a conseguir ser mais do que ruídos bloqueadores do silêncio indispensável para a reflexão. Para muitos, o ruído já é tão insuportável, que optam por recusar esta realidade, isolando-se, na busca de espaços onde as palavras, ainda, conseguem ser “palavras”, com sentido. Mesmo que abrigados em clichés. Vá-se lá saber como e até quando. Saliento que nem sempre a mudança é sinónimo de evolução e, como diria Chico Buarque: “Nem toda a loucura é genial, nem toda a lucidez é velha”. De volta, então, aos clichés: se partimos do princípio de que, em vez de clichés, falamos de referências, mais ou menos pensadas, que remetem para percursos narrativos, a responsabilidade de quem escreve poderá suavizar-se, permitindo espaço para o aparecimento de textos, mesmo fortuitos, que consigam aportar uma certa novidade e surpresa, enquadrados, desejavelmente, em percursos narrativos inéditos e, dessa maneira, consigam transpor a barreira de ruído que menciono acima. Bem sei que isto pode parecer confuso e talvez até irrelevante para quem me está a ler neste momento. Para além de ser extremamente ambicioso e improvável para “o comum dos mortais”. Mormente se introduzirmos uma outra – e nada despicienda – variável, nesta “equação”, ou algo que se pode traduzir numa afirmação que ouvi, há anos, alguém expressar publicamente ao referir-se à arte, na sua generalidade, e que me parece muito acertada: “(...) mais do que o seu valor intrínseco, a arte depende sempre de três factores... de uma certa massa crítica que acredite no seu valor, de quem efectivamente acredita no seu valor e da sua envolvente”. Foi, pois, para o bem e para o mal, com estes pensamentos na cabeça, que comecei a escrever esta crónica. Considerei fazer algo muito previsível: em final de ano, tendem a vir ao de cima sentimentos vários, associados a expectativas, quanto ao que passou, como ao que está para vir. Pretendi tão-só redigir breves comentários, que possam quiçá incitar, nesta quadra natalícia, a uma outra reflexão. Diria que deverão ser entendidos como meras sugestões ou motivos circunstanciais, com interesse para conversas partilhadas entre amigos e familiares, tendo por base alguns dos “tais” grandes temas da Humanidade. Faço-o, é claro, do meu ponto de vista e fundada em experiências pessoais, vividas durante o ano que agora termina. Ou seja, manifestamente, um cliché! 1. Guerrra Tive oportunidade de ver dois grandes filmes relacionados com conflitos bélicos: “A Oeste Nada de Novo”, uma adaptação cinematográfica de “Im Westen nichts Neues”, do alemão Erich Maria Remarque (2022). Trata-se de um intenso testemunho das atrocidades vividas pelos soldados alemães na I Guerra Mundial, muitos deles adolescentes, impreparados para a luta armada nas trincheiras. Verdadeira “carne para canhão”. Também “Oppenheimer” (2023), dirigido por Christopher Nolan, baseado no livro “American Prometheus, biografia de J. Robert Oppenheimer”, de Kai Bird e Martin J. Sherwin. Para além de facilitar o acompanhamento de diversos aspectos da vida de Robert Oppenheimer, o pai da bomba atómica, também permite que sejam percebidos o conflito interno e o arrependimento que sentiu, ao constatar as potencialidades da arma nuclear que criara e a dimensão da destruição que a mesma gerou nas cidades de Hiroshima e de Nagasaki, no Japão, em 1945. Apesar de nos serem oferecidos, a título de exemplo, estes convites à reflexão, desde Fevereiro de 2022 que convivemos com a guerra entre a Rússia e a Ucrânia, sem que percebamos muito bem se caminhamos, ou não, para uma terceira guerra mundial. Para dar ainda “mais cor ao cenário”, a 7 de Outubro irrompeu o conflito israelo-palestino de 2023 (guerra Israel-Hamas), com consequências imediatas, não somente no Médio Oriente. 2. Morte Em Maio, perdi o meu pai e, em Setembro, uma amiga. Já escrevi sobre isso, sob vários ângulos. Para aqui e agora, “recorro” às palavras de Vergílio Ferreira, que diz de forma sublime: “(...) O que mais me intriga e dói na nossa morte, como vemos na dos outros, é que nada se perturba com ela na vida normal do mundo. Mesmo que sejas uma personagem histórica, tudo entra de novo na rotina como se nem tivesses existido. O que mais podem fazer-te é tomar nota do acontecimento e recomeçar. Quando morre um teu amigo ou conhecido, a vida continua natural como se quem existisse para morrer fosses só tu. Porque tudo converge para ti, em quem tudo existe, e assim te inquieta a certeza de que o universo morrerá contigo. Mas não morre. Repara no que acontece com a morte dos outros e ficas a saber que o universo se está nas tintas para que morras ou não. E isso é que é incompreensível – morrer tudo com a tua morte e tudo ficar perfeitamente na mesma. Tudo isto tem significado para o teu presente. Mas recua duzentos anos e verás que nada disto tem já significado”. 3. Ser mãe No ano em que o meu filho fez 30 anos, foi editado mais um livro cuja autoria partilho com António Bagão Félix, o 575+757. Neste livro, a dada altura, ele pergunta-me qual o meu mês favorito, e eu respondo: “O mês em que fui mãe”. Não é mãe quem gera filhos; ser mãe é – como também já me disseram – procurar, todos os dias, ser muito mais, por ser muito menos. E isso é um exercício diário de superação. 4. Obra Já mencionei o livro 575+757, apresentado publicamente a 20 de Junho de 2023, na Biblioteca Municipal de Beja. Ainda no corrente mês será impresso o primeiro, de uma colecção de opúsculos, bilingue, que tem como tema central a viola campaniça e pessoas que, de algum modo, lhe estão associadas. Esta iniciativa está enquadrada no projecto designado “Cante de improviso com viola campaniça”, no âmbito da cátedra em Etnobotânica e Salvaguarda do Património de Origem Vegetal, instituída pela Unesco, no Instituto Politécnico de Beja, em Janeiro de 2023, da qual sou vice-titular. “A única coisa que transcende a existência do ser humano é a sua obra” (Máximo Gorki). 5. Desencanto No último sábado, dia 9 de Dezembro de 2023, foi assinalado o Dia Internacional contra a Corrupção, que coincidiu com o 20.º aniversário da Convenção das Nações Unidas contra a Corrupção (Uncac), declaração que enfatiza a “determinação da nossa comunidade global em combater a corrupção em todas as suas formas, em todo o lado”. Todavia, segundo dados do “Global Progress Report on Sustainable Development Goal 16 Indicators: A Wake-Up Call for Action on Peace, Justice and Inclusion” (United Nations Office on Drugs and Crime, Office of the United Nations High Commissioner for Human Rights e The United Nations Development Programme), “uma em cada cinco pessoas em todo o mundo afirma ter sido obrigada a pagar um suborno para aceder a um serviço público, [sendo] preocupante o facto de 124 países apresentarem níveis de corrupção estagnados”. Em Portugal, as comemorações decorreram este ano “com um governo demitido por suspeitas de tráfico de influências envolvendo o chefe de gabinete e o melhor amigo do primeiro-ministro, e com o próprio Presidente da República envolvido num caso suspeito de favorecimento, em resposta a um pedido do seu próprio filho. A informalidade, a lógica de acesso pessoal, a ‘cunha’ e o favorecimento tornaram-se formas corriqueiras de exercício do poder ao mais alto nível”, refere a “Frente Cívica, uma organização da sociedade civil para escrutínio dos poderes públicos” em declaração enviada à agência “Lusa”. Ora, face a isto, o desencanto dos cidadãos portugueses, traduzido na revolta relativa às instituições democráticas, que os deviam defender de forma séria e responsável, aumenta, assim como o descrédito na política partidária. Este é o terreno ideal para o crescimento de partidos populistas, antipluralistas, com um discurso de unificação, apesar de se estruturarem em torno do princípio da divisão. A democracia está em crise, e não só em Portugal. Já o escrevi num outro local. Será que isso se deve exclusivamente às atitudes e comportamentos dos protagonistas dos partidos, ou será o modelo de democracia – representativa – que se está a esgotar? Temos eleições legislativas marcadas para 10 de Março do próximo ano. Será que não é chegada a altura de se procurar e de se encontrar uma alternativa séria, credível, moderada, mobilizadora de uma franca maioria dos eleitores? Preferencialmente sob a égide de uma metáfora “viva”, que seja parte de um esquema conceptual global, que cristalize uma política e uma filosofia a ela adjacente, e que defina o percurso para o futuro de Portugal. Votos de boas festas e um excelente ano de 2024.